Quando alguém me pergunta qual é a abordagem que utilizo na psicoterapia, minha resposta costuma começar antes mesmo do nome da teoria.
Antes de falar sobre conceitos ou autores, gosto de explicar como compreendo o sofrimento humano.
Acredito que você é muito mais do que um diagnóstico, um sintoma ou um momento difícil. Sua história, suas relações, suas experiências e a forma como você interpreta tudo isso fazem parte de quem você é hoje.
É justamente esse olhar que orienta meu trabalho clínico e que encontra fundamento na Psicologia Histórico-Cultural e na Teoria da Subjetividade, desenvolvida por Fernando González Rey.
Mais do que compreender a ansiedade, a depressão ou qualquer outro sofrimento psicológico, essa perspectiva busca compreender você.
Nossa história influencia quem somos, mas não determina quem podemos nos tornar
Você já percebeu como duas pessoas podem passar pela mesma situação e reagir de maneiras completamente diferentes?
Enquanto uma enfrenta uma mudança de trabalho com entusiasmo, outra pode sentir medo ou insegurança. Algumas pessoas conseguem superar rapidamente um término de relacionamento, enquanto outras carregam esse sofrimento por muito tempo. Há quem tenha vivido uma infância difícil e desenvolva recursos para lidar com os desafios da vida, enquanto outras pessoas permanecem marcadas por essas experiências.
Essas diferenças não acontecem por acaso.
Cada pessoa constrói, ao longo da vida, uma maneira única de compreender o mundo, de se relacionar consigo mesma e com os outros. Essa construção é influenciada pelas experiências vividas, pelos vínculos que estabelecemos, pela cultura em que crescemos e pelos significados que damos à nossa própria história.
É justamente esse olhar que fundamenta a Psicologia Histórico-Cultural e, mais recentemente, a Teoria da Subjetividade, desenvolvida pelo psicólogo cubano Fernando González Rey.
Embora o nome possa parecer complexo, a ideia é bastante humana: ninguém pode ser compreendido apenas pelos sintomas que apresenta.
Antes da ansiedade, da tristeza persistente, do estresse ou das dificuldades nos relacionamentos, existe uma pessoa. E essa pessoa possui uma história.
Somos muito mais do que aquilo que sentimos
Quando enfrentamos um momento difícil, é comum buscarmos uma explicação rápida para o que estamos vivendo. Muitas vezes pensamos que existe “algo de errado” conosco ou acreditamos que nossas dificuldades surgiram de um único acontecimento.
Na prática, a experiência humana costuma ser muito mais complexa.
Nossa forma de pensar, sentir e agir vai sendo construída desde os primeiros anos de vida. As relações familiares, as amizades, a escola, o ambiente de trabalho, as perdas, as conquistas e até mesmo a cultura em que estamos inseridos participam dessa construção.
Isso não significa que somos apenas o resultado do ambiente em que vivemos.
Também não significa que nosso passado determina quem seremos para sempre.
Significa que cada experiência deixa marcas e produz sentidos. Algumas fortalecem nossa confiança, outras despertam inseguranças. Algumas favorecem vínculos saudáveis; outras podem fazer com que desenvolvamos formas de proteção que, em determinado momento da vida, deixam de funcionar.
Compreender essas marcas não é buscar culpados. É entender como nossa história participa da maneira como vivemos o presente.
O que Fernando González Rey acrescentou a essa compreensão?

A Psicologia Histórico-Cultural teve início com Lev Vygotsky, que demonstrou como o desenvolvimento humano acontece nas relações sociais e é profundamente influenciado pela cultura e pela linguagem.
Décadas depois, Fernando González Rey ampliou essa perspectiva ao desenvolver a Teoria da Subjetividade.
Sua principal contribuição foi mostrar que cada pessoa constrói sentidos próprios para aquilo que vive.
Isso explica por que duas pessoas podem passar por experiências semelhantes e, ainda assim, atribuir significados completamente diferentes a elas.
Imagine, por exemplo, duas crianças que mudam de cidade.
Uma pode interpretar essa mudança como uma oportunidade para fazer novos amigos e viver novas experiências.
Outra pode sentir que perdeu seu lugar, desenvolver insegurança e passar a acreditar que os vínculos são sempre temporários.
O acontecimento foi o mesmo.
Os sentidos construídos a partir dele foram diferentes.
É justamente essa construção singular que González Rey chama de subjetividade.
Nossa subjetividade não é formada apenas por pensamentos ou emoções isoladas. Ela é construída continuamente a partir das relações que estabelecemos, da cultura em que vivemos, das experiências que acumulamos e da forma como cada uma delas ganha significado em nossa história.
E o que isso tem a ver com a psicoterapia?

Na psicoterapia, não busco apenas identificar sintomas ou oferecer estratégias para que eles desapareçam.
Também procuro compreender a pessoa que está vivendo aquele sofrimento.
Quando alguém chega ao consultório dizendo que sente ansiedade, por exemplo, dificilmente essa palavra conta toda a história.
Como essa ansiedade começou? Em quais momentos ela aparece?
Que experiências contribuíram para que determinadas situações fossem vividas como ameaçadoras?
Que recursos essa pessoa desenvolveu ao longo da vida para lidar com suas dificuldades?
Essas perguntas ajudam a construir uma compreensão mais ampla do sofrimento.
Em vez de enxergar apenas o problema, passamos a enxergar a pessoa em sua totalidade.
Isso não significa reviver o passado indefinidamente ou procurar culpados para tudo o que aconteceu.
O objetivo é compreender como determinadas experiências continuam influenciando o presente e, principalmente, favorecer a construção de novos sentidos para elas.
Sua história pode ser ressignificada

Um dos aspectos mais importantes dessa perspectiva é reconhecer que a história influencia quem somos, mas não determina quem podemos nos tornar.
As experiências vividas deixam marcas, mas essas marcas não são permanentes nem imutáveis.
Ao longo da vida, construímos novos vínculos, enfrentamos novos desafios, aprendemos outras formas de lidar com as emoções e atribuímos novos significados ao que vivemos.
A psicoterapia faz parte desse processo.
Ela oferece um espaço de escuta, reflexão e acolhimento, no qual é possível compreender padrões que se repetem, reconhecer recursos pessoais que muitas vezes passam despercebidos e desenvolver maneiras mais saudáveis de se relacionar consigo mesmo e com os outros.
Mais do que aliviar sintomas, o processo terapêutico busca favorecer transformações que façam sentido para a vida de cada pessoa.
Um olhar para além dos diagnósticos
Receber um diagnóstico pode ser importante em muitos momentos, pois ajuda a compreender determinados sintomas e orienta intervenções adequadas.
No entanto, nenhum diagnóstico é capaz de resumir quem alguém é.
Cada pessoa possui uma história, valores, sonhos, medos, relações e experiências que não cabem em um nome técnico.
É por isso que, na abordagem histórico-cultural inspirada nas contribuições de Fernando González Rey, o foco não está apenas naquilo que a pessoa apresenta, mas também na forma como ela construiu sua trajetória e continua construindo sua própria existência.
A ansiedade, a depressão, as dificuldades nos relacionamentos ou qualquer outro sofrimento psicológico não definem uma pessoa. Eles fazem parte de um momento da sua história, mas não esgotam tudo o que ela é.
Talvez essa seja uma das mensagens mais importantes dessa perspectiva: somos seres em constante transformação.
Nossa história participa da construção de quem somos, mas ela continua sendo escrita todos os dias.
E, muitas vezes, a psicoterapia pode ser o espaço onde novos capítulos começam a ser construídos.
Se esse texto fez sentido para você, talvez a psicoterapia possa ser um espaço para compreender sua história com mais profundidade e construir novos significados para aquilo que hoje causa sofrimento.