Neuropsicologia, um tema curioso e que tem ficado cada vez mais em evidência nos dias atuais. A neuropsicologia é uma ciência que congrega três grandes áreas: a da psicologia, com o estudo da mente e do comportamento humano, o da neurologia, com o estudo de lesões físicas no cérebro, e o da psiquiatria, que estuda os transtornos mentais e impacto no funcionamento do ser humano. A neuropsicologia busca compreender o comportamento humano e seu funcionamento levando em consideração esses três vieses de interpretação do ser humano. Ela se divide em duas grandes áreas, a da avaliação neuropsicológica e a da reabilitação cognitiva. Vou me ater à avaliação neuropsicológica.
A avaliação neuropsicológica tem como objetivo compreender o que tem causado as dificuldades comportamentais e cognitivas, ou seja, porque meu filho não aprende? Será que minha mãe/pai está com demência/Alzheimer (que é um tipo de demência)? Porque eu não consigo prestar atenção, será que é TDAH?
Essas são algumas das perguntas que a avaliação busca responder. E não somente diagnosticar quando for o caso, mas também distinguir a intensidade do que vem acontecendo, se há necessidade de medicação e qual a conduta de tratamento mais indicada para cada caso.
A forma que a avaliação vai ser conduzida depende de cada profissional, podendo variar na escolha dos materiais a serem utilizados, no tipo de entrevista, nas pessoas que participarão das entrevistas (pais, cônjuges, profissionais de saúde, de educação…) e, principalmente no olhar clínico.
Por vezes algumas pessoas, inclusive profissionais da saúde, falam que avaliação neuropsicológica é somente aplicação de testes, no entanto, ela vai muito além disso. Avaliar, significa ter o olhar treinado para perceber os pormenores do comportamento, a forma que a pessoa está executando o que foi pedido, o tipo de estratégia que está sendo utilizado e se realmente está tendo estratégia, se a dificuldade na memória está de fato na memória ou na oscilação atencional que impacta na entrada da informação para ser registrada, se a dificuldade na atenção é grande o suficiente para configurar um Transtorno do Déficit de Atenção ou se ela está sendo causada por cansaço e/ou sobrecarga. Outro ponto relevante a ser considerado é especificamente o que tem causado as dificuldades percebidas.
Para responder as perguntas acima e para investigar o que foi proposto, é necessário avaliar algumas funções cognitivas específicas, como a atenção complexa, que compreende a atenção sustentada, a atenção seletiva, a atenção alternada e a velocidade de processamento, a funções executivas, que pode ser dividida em quente (controle inibitório, flexibilidade cognitiva e memória operacional) e frias (planejamento, elaboração de estratégias, resolução de problemas…), a aprendizagem e memória, perfil de aprendizagem, memória de curto e de longo prazos, verbal ou auditiva, dentre outras, a linguagem, expressiva – nomeação, gramática, fluência – ou receptiva – compreensão -, o perceptomotor, percepção visual, coordenação olho-mão… e a cognição social, teoria da mente, percepção social…

Para além da avaliação das funções cognitivas, cabe ressaltar a importância de se investigar o estado emocional do indivíduo, como ansiedade e depressão, bem como as medicações que estão sendo utilizadas no momento da avaliação.
Os instrumentos utilizados na realização da avaliação, são padronizados e com base em estudos científicos profundos, levando em consideração média e desvio-padrão para a população brasileira, considerando gênero e escolaridade, deixando pouca margem para a interpretação subjetiva do avaliador. Se é assim, porque então buscar um profissional específico?
Antes de responder à pergunta anterior, algumas pessoas tem certeza de que sairão da avaliação com algum diagnóstico enquanto outras se questionam se realmente é dado um diagnóstico válido e científico ou se é mais baseado no “achismo” do avaliador.
Respondendo aos dois questionamentos levantados, a importância de se escolher um profissional capacitado para realizar a avaliação neuropsicológica está na sensibilidade e especificidade do olhar; está na capacidade de realizar o diagnóstico diferencial entre as dificuldades comportamentais e cognitivas apresentadas. Por exemplo, duas pessoas podem apresentar o mesmo desempenho no teste de atenção, no entanto, uma obteve esse resultado por dificuldade atencional de fato e a outra pode ter apresentado esse mesmo resultado em decorrência da ansiedade vivenciada; ou dificuldades em achar as palavras dos objetos, enquanto em uma pessoa pode ser problema de memória, na outra pode ser comprometimento em linguagem; uma pessoa com hiperfoco pode fazer parte do espectro autista, bem como do transtorno do déficit de atenção/hiperatividade; pessoas com sensibilidade sensorial podem ser autistas ou apresentarem dificuldade nesse processamento. Ou seja, o profissional bem treinado e capacitado, com olhar sensível às dificuldades e know-how sobre o funcionamento cognitivo normal e o patológico consegue diferenciar de forma clara o objetiva os comportamentos apresentados, com segurança em afirmar ou em refutar algum diagnóstico pensado anteriormente.
O que define um diagnóstico, portanto, não são comportamentos ou dificuldades isoladas, mas o conjunto de sinais e de sintomas, bem como a intensidade e frequência que eles aparecem, juntamente com o impacto na vida diária, ou seja, na realização das atividades do dia a dia.
A avaliação neuropsicológica, quando realizada de forma criteriosa, vai muito além da busca por um diagnóstico. Ela oferece compreensão. Compreensão sobre a história daquela pessoa, sobre suas potencialidades, suas dificuldades, os fatores que interferem em seu funcionamento e, principalmente, sobre quais caminhos podem favorecer seu desenvolvimento e sua qualidade de vida.
Por isso, mais do que a aplicação de instrumentos validados, uma boa avaliação exige integração entre conhecimento científico, experiência clínica e um olhar atento para aquilo que não aparece apenas nos números. Exige escuta, raciocínio clínico e responsabilidade na interpretação de cada resultado, para que as conclusões reflitam a singularidade de quem está sendo avaliado e sirvam como base segura para as decisões terapêuticas, educacionais e médicas que poderão ser tomadas a partir delas.

Seja diante de uma criança com dificuldades de aprendizagem, de um adolescente com suspeita de TDAH ou Transtorno do Espectro Autista, de um adulto que enfrenta prejuízos na atenção ou na memória, ou de um idoso com alterações cognitivas, cada avaliação representa uma história única. E é justamente essa singularidade que merece ser compreendida com profundidade, sensibilidade e rigor científico.
Acredito que esse seja o verdadeiro propósito da neuropsicologia: não rotular pessoas, mas compreender o funcionamento cognitivo e emocional de forma ampla, oferecendo respostas fundamentadas e caminhos que promovam melhora na funcionalidade e independência e na qualidade de vida. Quando bem conduzida, a avaliação neuropsicológica não entrega apenas um laudo. Ela entrega compreensão, direcionamento e segurança para as próximas decisões.
Christy Cugola
Psicóloga • Neuropsicóloga – CRP 01/18469
“Compreender a história por trás das dificuldades cognitivas é o primeiro passo para um cuidado verdadeiramente individualizado.”